quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Rio Subversivo de Deus sob a areia escaldante do deserto




Por Hermes C. Fernandes

Tão logo deixaram o Oásis de Mara, 24 quilômetros mais para Sul, o povo de Israel deparou-se com o grande Oásis de Elim, em que havia nada menos que doze fontes de água e setenta palmeiras, capazes de prover sombra e água fresca por muitos dias. O nome “Elim” significa "grandes árvores sagradas”(Êxodo 15:27). Provavelmente, quem o descobriu, atrabuiu-lhe um valor muito especial. Aquele era, por assim dizer, um paraíso no meio do nada.

Tanto Mara, quanto Elim, foram paradas rápidas. Talvez alguém tenha imaginado que Elim seria um ótimo lugar para passar uma longa temporada. Mas Deus tinha outros planos. Se perdermos de vista a Terra Prometida, corremos o risco de nos contentar com o oásis. Elim era apenas um prenúncio pálido daquilo que o futuro reservava àquele povo. Se seu interesse se resumisse em “sombra e água fresca”, Elim era um prato cheio. Porém, o que Deus lhes prometera era muito mais que isso: uma terra que manava leite e mel. O oásis poderia ser uma boa escala, mas não era o destino.

O texto sagrado diz que nesse oásis havia doze fontes e setenta palmeiras. Tais números nos remetem às duas vezes em que Jesus comissionou Seus discípulos. Da primeira vez, Ele comissionou doze discípulos, e “deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curarem enfermidades. Então os enviou a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos” (Lc.9:1-2). Pouco mais tarde, “designou o Senhor ainda outros setenta, e mandou-os adiante de si, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir” (Lc.10:1).

Há aqui algumas importantes observações a serem feitas:

Os primeiros doze receberam ordem de pregar o evangelho do Reino. Eles, que mais tarde ficariam conhecidos como “apóstolos”, foram responsáveis por lançar os fundamentos da civilização do Reino. É sobre eles que Paulo escreve aos gentios:“Assim já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra angular” (Ef.2:19-20).

Por isso, os apóstolos são representados como doze fontes. Eles dão o ponta-pé inicial, o start na construção dessa nova sociedade. Na visão de João em Apocalipse, eles são os doze fundamentos do muro que cerca a Nova Jerusalém (Ap.21:14). Seus ensinos são a base que estabelece as fronteiras da cidade santa, figura da igreja de Cristo, capital do Reino de Deus.  João também diz que esta cidade celestial possui doze portas em forma de pérolas (Ap.21:21), deixando subentendido que o acesso a ela se dá igualmente pelo ensino apostólico.

Cada membro desta nova humanidade é desafiado a edificar sobre esses fundamentos. É Paulo quem declara: “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio construtor, o fundamento, e outro edifica sobre ele. Mas veja cada um como edifica sobre ele” (1 Co.3:10). Ora, o ensino dos apóstolos nada mais é do que a aplicação da doutrina de Jesus. Se quisermos manter-nos na rota certa que nos levará à consumação dos propósitos divinos e na construção da civilização do Reino, devemos sempre recorrer às fontes, pois delas receberemos água pura, sem a contaminação de ideologias e filosofias humanas.

Por mais que se lancem detritos em um rio, sua fonte permanecerá pura. Ninguém em sã consciência beberia das águas do rio Tietê, em São Paulo. Mas se formos à sua fonte, não só beberemos, como nos deliciaremos na pureza de suas águas. Ao longo da história, a religiosidade humana se deixou contaminar por todo tipo de interesses excusos, por ideologias baratas e práticas pagãs. Porém, o legado apóstolico mantém-se intacto. A Reforma Protestante só foi possível porque alguém voltou às fontes. Lutero redescobriu as epístolas, e rompeu com o sistema corrupto de sua época.

A segunda leva de discípulos comissionados por Jesus era em número de setenta. A missão desses era preparar o caminho para Jesus. Eles O antecediam pelas cidades por onde o Mestre passaria. Esta comissão não se limita aos setenta, mas abrange os discípulos de todas as eras, o que, evidentemente, nos inclui. Por isso, ao comissioná-los, Jesus diz: “Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara”(Lc.10:2). Cada um de nós é a resposta de Deus às orações dos que nos antecederam. Assim como os setenta originais saíram de cidade em cidade, por onde Jesus iria passar, nós temos a missão de preparar o caminho de Cristo em Seu segundo advento.

Por que somos comparados às palmeiras do Oásis de Elim? Ora, aquelas palmeiras floreceram no meio do deserto, por estarem plantadas junto às águas daquelas doze fontes. Pois isso é a metáfora perfeita para a maneira como o justo floresce neste mundo (Sl.1:3).

Veja o que o salmista diz:
“O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano; plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus”(Sl.92:12-13).
O deserto no qual fomos plantados é a sociedade humana, corrompida, caótica, arruinada, carente de restauração. Embora em meio a este deserto, nossas raízes estão próximas das águas cristalinas da Palavra de Deus, confiada aos apóstolos e profetas. Como “árvores plantadas pelo Senhor”, temos um missão a cumprir neste mundo caótico.
“Eles se chamarão árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado. Reedificarão as ruínas antigas, e restaurarão os lugares há muito devastados; renovarão as cidades arruinadas, devastadas de geração em geração” (Is.61:3b-4).
O oásis é o prenúncio de que um dia o deserto inteiro florescerá. Do ponto de vista natural, o oásis é um foco de resistência da natureza ao processo de desertificação. As águas que irrompem no oásis não vieram do nada. De maneira discreta e subversiva, elas percorreram um longo caminho sob a areia escaldante do deserto, até encontrarem o lugar perfeito para arrebentarem. Tal é o percurso do rio de Deus e seus afluentes no mundo. Em breve, ele arrebentará e irrigará todo o deserto.

Eis a promessa: “O deserto e os lugares secos se alegrarão; o ermo exultará e florescerá como a rosa (…) eles verão a glória do Senhor, a excelência do nosso Deus (…) Águas arrebentarão no deserto, e ribeiros no ermo. A terra seca se transformará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas” (Is.35:1,2b, 6b-7a).

Como discípulos comissionados pelo Mestre, devemos anunciar a chegada de um novo tempo, e assim como João Batista, preparar o caminho do Senhor. Somos hoje“a voz do que clama no deserto”, declarando em alto e bom som: “A glória do Senhor se manifestará, e toda a humanidade juntamente a verá” (Is.40:3,5).

O Oásis de Elim era apenas uma amostra grátis do futuro que Deus havia preparado para o Seu povo. Portanto, não havia razão para que sentissem saudade do Egito. Nenhuma glória do passado, pode comparar-se à glória ainda por vir. Por isso, o Senhor nos repreende: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Vede, eu faço uma coisa nova, que está saindo à luz; não a percebeis? Porei um caminho no deserto, e rios no ermo” (Is.43:18-19).

Elim representa a Igreja de Cristo ainda em estado embrionário, mas cujo destino é encher toda a Terra.

Lembra-se do que os discípulos usaram para dar boas vindas a Jesus em Sua entrada triunfal em Jerusalém? A estrada pela qual adentrou a cidade foi pavimentada com ramos de palmeiras (Jo.12:13). O caminho aberto pelos que nos atenceram na fé, agora deve ser pavimentado pelo nosso testemunho. Nossa conversão é o sinal de que em breve o mundo se renderá ao Rei dos reis. Aquele que foi capaz de fazer brotar um oásis no deserto, também será capaz de transformar o deserto inteiro num jardim: “Ele fará o seu deserto como o Éden” (Is.51:3).

Ora, se Elim era um lugar tão paradisíaco, por que os hebreus não ficaram por ali mesmo? Pelo simples fato de que lá não era seu destino.

A igreja cristã tem cometido o erro de acomodar-se àquilo que já alcançou, tornando-se um fim em si mesma. Deixamos de ser hebreus, isto é, um povo constantemente em marcha, caminhantes, nômades. Em vez de cumprirmos nossa vocação de sermos um povo voltados para fora, fechamo-nos em nós mesmos, e nos tornamos num clube religioso.

A nuvem andou, e nós ficamos. Somos como um trem que fez de sua baldeação a última estação. 

O Espírito de Deus nos desafia a deixar nossa zona de conforto e a prosseguir pelo deserto afora,  rumo à Terra da Promissão. Canaã nos espera. O futuro já se insinua no horizonte, convidando-nos a sair ao seu encontro. Deixemo-nos seduzir por ele.

Creio que o primeiro Oásis (Mara) representa a maneira como devemos tratar com o passado. Elim representa o presente. Canaã representa o futuro. Entre o presente e o futuro, às vezes nos esbarramos com o futuro do pretérito.

Hora do embarque! Próxima estação: Refidim.


Cá entre nós #2 - Uma Chance à Paz

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Lances de Caná (5) Horas



4 Respondeu-lhes Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora.

Jesus de Nazaré é o Messias, o prometido libertador de Israel e da Humanidade.

Ele veio para buscar e salvar o que se havia perdido (Lc 19.10 RC)

A exemplo da serpente, por Moisés levantada no deserto, ele, quando levantado, todos atrairia a si. (Jo 3.14; 12.32 RA)

Ele estava no casamento, havia sido convidado, e seu ministério ainda não tinha começado.

O ministério de Jesus era o de demonstrar, na história, oEsvaziamento do Deus Filho, antes da história e pela história.

Jesus demonstraria o Esvaziamento, morrendo a cada movimento, até morrer na cruz.

(Porque, desde a criação, nada foi feito senão por causa, por meio e a partir do Esvaziamento, sem o que nada do que foi feito se fez. Jo 1.3; Cl 1,15-17)

Ainda não havia chegado a hora dele demonstrar a todos que estava a morrer.

O Pai, ainda, não o havia autorizado.

(No ministério, que é participar do morrer de Jesus, para anunciar a sua ressurreição, é preferível ser empurrado pela Trindade do que sair na frente dela. Cl 1.24)

Ainda não havia chegado a hora de Jesus, mas aqueles jovens casadouros só tinham aquela hora. Ah! A finitude e a temporariedade humanas!

Jesus teria, portanto, se desejasse salvar a hora dos jovens e salvar os jovens da hora, que se esvaia em frustração, de fazer um milagre que não provocasse imediata atração a si.

(Um milagre discreto, até onde um milagre o possa ser.)

Deus, no Cristo, vivia a realidade humana.

Deus, que, a qualquer tempo (passado, presente e futuro) pode estabelecer o seu “kairós (sua hora de agir), se viu envolto na sina da humanidade, que, ao invés de estabelecer o seu “kairós,” é surpreendido pelos “kairós” da história, de forma, muitas vezes, opressiva.

A gente gostaria de fazer a hora, mas, na maioria das vezes, é a hora que nos faz – o tempo nos surpreende sempre – até porque não sabemos quanto tempo temos, e quem não sabe quanto tempo tem, tem muito pouco tempo, e, mais, não sabe do tempo que tem, que tempo virá.

Que extraordinária é essa experiência de discernir o tempo! Saber quando é e quando não é a hora.

(O salmo 1 diz que quem tem o seu prazer na lei de Deus e nela medita de dia e de noite, mesmo sem o saber, por mera graça, chega lá.)

E Jesus considerou a hora dos noivos importante o suficiente para agir antes da sua hora.

Que ser extraordinário é esse para quem a hora do outro é tão importante quanto a sua hora?

E Jesus, discretamente, até onde possível, fez o primeiro movimento sacrificial, que indicava que o Filho do Homem, em consonância com o Esvaziamento do Deus Filho, veio ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas, para que o mundo fosse salvo por ele (Jo 3.17).

A gente ora por saber que Deus dá importância à nossa hora.

Quando a hora da história tenta, opressivamente, nos esmagar, fiada em nossa finitude e temporariedade, o Deus Infinito que, no Cristo, sabe de nossa angústia, salva-nos na hora e da hora, e, assim, faz outra hora, não deixa aquela suceder.

Que a gente imite a Trindade e faça muita hora vir a ser para muita gente e para toda a sociedade. Que sejamos agentes de transformação social, de vida, de justiça e de paz.

Porque, se a gente nem sempre sabe a nossa hora, a gente sempre poderá, inspirado no Cristo, socorrer o outro e a sociedade, na luta por outra hora acontecer. ©ariovaldoramos

Encontrando Deus na ÚLTIMA FRONTEIRA






Por Hermes C. Fernandes

Já vimos que Deus Se revela através das Escrituras, da Criação, da Igreja, e sobretudo, através de Seu Filho Jesus Cristo. Ele é a revelação definitiva de Deus.

Porém, resta-nos uma última fronteira, onde para muitos, Deus Se mantém escondido.

Não se trata dos mistérios do Cosmos, como os buracos negros, quasares, galáxias longínquas, super-novas, etc. Também não se trata do mundo subatômico, quântico.

Trata-se, antes, daqueles com quem Cristo Se identifica de maneira mui peculiar: Os pobres e excluídos da sociedade. É lá que Deus Se mantém velado, à espera de quem O busque.

Não basta encontrar Deus nas Escrituras, na Igreja, na Criação, se não nos dispusermos a buscá-lO nos pequeninos. É assim que Ele os chama.

Veja o que Jesus diz sobre isso:
“Quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Todas as nações se reunião diante dele, e ele apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas. Ele porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Pois tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu, e me visitastes; preso e fostes ver-me. E perguntarão os justos: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou preso e fomos ver-te? Ao que lhes responderão Rei: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt.25:40).
Ao sairmos ao encontro desses pequeninos, é com Cristo que nos deparamos. Engana-se quem imagina poder encontrá-lO nas catedrais dos grandes centros urbanos. Seria como se os magos esperassem encontrar o Messias recém-nascido no palácio de Herodes. Cristo está sob as marquises dos prédios abandonados; atrás das grades das prisões públicas; nas palafitas construídas às margens das valas negras.

Não vamos simplesmente para lhes dar algo que não tenham. Vamos ao encontro de algo de que necessitamos desesperadamente.

Muitos se dedicam às obras de caridade por um desencargo de consciência. Alguns até para driblar a culpa que lhes tira o sono. Ajudar aos pobres faz com que se sintam confortáveis consigo mesmos, pertencentes a uma classe superior, ricos, qualificados. Quando deveriam, sim, sentir-se envergonhados. A pobreza denuncia nossa arrogância, nossa prepotência, a injustiça imperante no sistema do qual tiramos nossa subsistência.

Deus Se esconde de tal maneira nos pobres, que nem mesmo Seus escolhidos dão conta de reconhecerem-No. Daí a pergunta: Quando, Senhor?

Ficamos embebecidos com o espetáculo da natureza. É relativamente fácil enxergar a majestade divina num pôr-do-sol, num arco-íris, e até no canto de um passarinho. Tudo isso é muito belo, e, de fato, aponta para Deus, manifestando Seus atributos invisíveis.

Encontrá-lO nas Escrituras é uma questão de fé. Nossos olhos são desvendados pela ação do Espírito Santo, que nos faz compreender o testemunho de Deus registrado nas páginas sagradas (Pv.1:23). Porém, buscá-lO e encontrá-lO no pobre, no indefeso, no preso, no enfermo, somente através das lentes do amor.

Esta é, por assim dizer, a última fronteira na qual Deus Se mantém escondido.

Como a igreja primitiva lidou com esta verdade indiscreta e perturbadora? Ninguém melhor que Tiago, irmão do Senhor, para nos responder:
“Glorie-se o irmão de condição humilde na sua alta posição. O rico, porém, glorie-se na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva” (Tg.1:9-10).
O Evangelho do Reino é a mais subversiva de todas as mensagens já anunciadas entre os homens. O que os homens chamam de sabedoria, Deus chama de loucura. O que chamamos de fraqueza, Deus chama de força. O que acreditamos ser riqueza, Deus afirma que é miséria.

Seguindo a lógica do Reino, Tiago diz que o irmão de condição humilde deveria gloriar-se em sua alta posição. Não se trata de posição social, mas espiritual, uma vez que Deus o escolheu.

Paulo reverbera o mesmo ensino, quando nos conclama a conferir: “Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que ninguém se glorie perante ele” (1 Co.1:26-29).

Gloriar-se em sua condição humilde é o mesmo que gloriar-se em Deus, em vez de em si mesmo e em seus recursos naturais.

Tiago não faz média com os ricos do seu tempo. Pelo contrário, ele os confronta. “O rico, porém, glorie-se na sua insignificância” (Tg.1:10a). Que golpe na arrogância de quem se acha importante. Que insulto à sua vaidade!

Recentemente, uma pesquisa feita pelo instituto britânico New Economics Foundation revelou que pessoas que trabalham fazendo faxina em hospitais têm mais valor para a sociedade do que os funcionários de alto escalão de um banco. Enquanto o faxineiro gera cerca de R$ 30 de valor para cada R$ 3 que recebe, o bancário com salário anual a partir de R$ 1,5 milhão) é um peso para a sociedade, custando cerca de R$ 21 para cada R$ 3 que ganham. O faxineiro rende dez fez o que ganha. O bancário dá prejuízo de sete vezes o que ganha.

Como uma igreja em nossos dias receberia o executivo de um banco? E como receberia um faxineiro? Seriam tratados de igual maneira?

Infelizmente, nos adequamos ao espírito deste mundo, e abandonamos a mensagem subversiva do reino.

Muitas igrejas têm se especializado em alcançar a classe média alta, desprezando completamente as classes mais baixas e necessitadas. Este se tornou o sonho de consumo de praticamente todos os ministérios hoje em dia. Todos querem as classes A e B. Ninguém quer as classes D e E.

As grandes denominações querem ter Sedes nos bairros mais abastados da cidade. Enquanto isso, as favelas são relegadas a segundo plano. Quando surge alguma igreja nelas, geralmente é por iniciativa dos próprios moradores. Alguns pastores até investem em igrejas nestas comunidades carentes, para evitar que seus moradores desçam para o asfalto e freqüentem seus templos luxuosos, trazendo incômodo aos seus membros mais distintos.

Este não é um problema recente. Tiago teve que enfrentá-lo nos dias da igreja primitiva.Veja o que ele diz:
“Meus irmãos, como crentes em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, não façais acepção de pessoas. Por exemplo: Se na vossa reunião entrar algum homem com anel de ouro no dedo, e com trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e atentardes para o que tem os trajes de luxo, e lhe disserdes: Assenta-te aqui em lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos, e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus aos que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre” (Tg.2:1-6a).
Parece que Tiago estava falando diretamente com os pastores de nossos dias, alguns dos quais chegam a destacar alguém para o ministério local por causa de suas vultuosas contribuições. Quantos diáconos precoces? Presbíteros despreparados, que mal se converteram, e logo foram içados a uma posição na igreja. Já o pobre, o que não usa roupas de grifes famosas, não só são ignorados, como às vezes são até rechaçados. Há quem até sugira: Procure outra igreja, onde as pessoas sejam do seu nível social. Aqui não é pra você.

É lamentável ter que admitir isso. Mas é a mais pura verdade. As pessoas valem o quanto pe$am.

Desonrar ao pobre é desonrar Àquele que o criou, e o escolheu para ser Seu esconderijo.

É bom que se diga que Deus não tem nada contra os ricos. Deus igualmente os criou. O que ofende a Deus é o fato de muitos se estribarem em suas riquezas materiais.

A única maneira do rico agradar a Deus é reconhecer seu estado de miséria espiritual. Ou no dizer de Tiago, sua “insignificância”. Reconhecer que todo o seu dinheiro é incapaz de garantir-lhe uma vida de significado e propósito.

Assim como há ricos que são “pobres de espírito”, há pobres que são arrogantes, e que tentam passar uma imagem de abastança. Como diria o adágio: Comem sardinha, arrotam caviar. O sábio Salomão os denuncia:“Uns se dizem ricos sem ter nada outros se dizem pobres, tendo grandes riquezas” (Pv.13:7).

Pobreza de espírito é manter-se na total dependência de Deus. Jamais jactar-se em seus próprios recursos, sejam eles parcos ou abundantes.

Se a Igreja almejar ser canal através do qual Deus Se revele ao mundo, ela terá que admitir sua pobreza. E isso equivale a tomar a contramão da postura adotada pela igreja de Laodicéia.

Leia atentamente o que Cristo diz aos laodicenses:
“Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta. Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, para ungires os teus olhos, a fim de que vejas” (Ap.3:17-18).
De acordo com a doutrina da confissão positiva, tão apregoada em nossos dias, a igreja de Laodicéia estava corretíssima em fazer tais “declarações de fé”. Entretanto, Cristo reprovou sua postura arrogante e auto-suficiente. Se fosse verdade que palavras positivas seriam capazes de atrair prosperidade para quem as proferisse, as Escrituras não diriam: “Em todo trabalho há proveito, mas meras palavras só conduzem à pobreza” (Pv.14:23).

Cristo chega a usar de sarcasmo com aquela igreja prepotente. Era como se Ele dissesse: Já que vocês são tão ricos, prósperos, auto-suficientes, vou lhes dar um conselho: Usem seus recursos para adquirir o que vocês ainda não têm: A verdadeira riqueza.

Paulo usa sarcasmo semelhante ao escrever para outra igreja que achava não ter falta de coisa alguma: Corinto.
“Pois quem tem faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? Já estais fartos! Já estais ricos! Sem nós reinais! E oxalá reinásseis para que também nós reinemos convosco! Pois tenho para mim que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte. Somos feitos espetáculos ao mundo, aos anjos e aos homens. Nós somos loucos por amor de Cristo, e vós sábios em Cristo! Nós fracos, mas vós dois fortes! Vós sois ilustres, nós desprezíveis (...) Até ao presente temos chegado a ser como o lixo deste mundo, e como a escória de todos” (1 Co.4:7-10,13b).
Qual o auto-intitulado apóstolo de nossos dias que pode apresentar-nos as mesmas credenciais? Se lermos os versos que omiti (11-12), veremos o quanto Paulo sofreu pela causa do Reino.

Precisamos descer de nossos pedestais ministeriais e admitir nossa profunda pobreza. E quando a admitimos, já não nos ofendemos quando Deus usa o mais humildes dentre os homens para nos abençoar com um prato de comida, ou qualquer outra provisão. Pergunte a Elias como ele se sentiu quando percebeu que o canal escolhido por Deus para alimentá-lo era uma viúva pobre de Sarepta.

Jesus disse que devemos aprender d’Ele que é manso e humilde de coração. Manso para repartir seu próprio pão, humilde para receber sem sentir-se constrangido. A palavra traduzida por “manso” tem a conotação de “desapegado”. Manso é aquele que já não faz questão de coisa alguma. Aquele que vê sua túnica sendo repartida entre os soldados romanos, e não a reclama para si. Já o ser humilde significa está sempre pronto a receber, mesmo quando o canal usado por Deus é de condição mais humilde que a nossa.

O chamado de Deus para a igreja deste tempo é um chamado à pobreza. Não estou falando de um voto de pobreza semelhante ao feito por monges franciscanos. Mas de uma pobreza em que admitimos que nossa suficiência vem do Senhor.

Aí poderemos nos apresentar como Paulo: “Pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Co.6:10).

O que constrangerá o mundo quanto ao amor de Deus não serão testemunhos de pessoas que se enriqueceram depois que abraçaram a fé em Jesus, e sim de pessoas que abriram mão de tudo por amor ao seu semelhante.