terça-feira, 25 de maio de 2010

DIÁLOGO COM UMA PROSTITUTA SAMARITANA


Havia uma tensão muito grande entre os samaritanos e os judeus nos tempos de Jesus. Os samaritanos ainda declaravam sua fé nos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, embora tivessem se afastado das preciosidades do resto do Antigo Testamento e consideravam-se filhos de Abraão, embora praticassem uma religião sincrética cheia de paganismo, crenças e práticas ocultistas, os samaritanos provocavam tanta repulsa nos judeus, que estes raramente passavam em seu território, e quando o faziam, não era incomum que fossem detidos e agredidos simplesmente por terem entrado em Samaria.
Quando Jesus transferiu seu ministério para a Galiléia, decidiu que atravessaria Samaria, ao invés de evitar a região. Durante o percurso, ele se assentou a beira do poço de Jacó para descansar enquanto os discípulos foram à cidade comprar o almoço. Ele ainda estava descansando quando uma mulher samaritana chegou para tirar água do poço. Não sabemos qual era seu nome, mas sabemos que tinha uma má reputação. Ela era a suja e desgastada prostituta da cidade, que depois de ter passado por cinco casamentos fracassados não tinha outro recurso a não ser o de viver amasiada, trocando sexo por casa e comida.
Ela não disse uma palavra a Jesus, provavelmente por achar que um rabino judeu não estaria interessado em bater papo com uma mulher como ela. Ela havia chegado ao poço sozinha, no calor do meio-dia, porque sabia que as senhoras de respeito, que se reuniam mais cedo, quando o dia estava mais fresco, para tirar água e fofocar, a receberiam tão bem quanto a Ku Klux Klan receberia Malcon X em uma de suas reuniões.
A historia da uma virada surpreendente quando Jesus se dirige tranquilamente a ela e diz: “a senhora poderia me dar um pouco de água para beber?” Apanhada de surpresa, a mulher fez uma cara de que não estava entendendo nada e ficou ali parada, olhando para Jesus, boquiaberta, de tão chocada, porque, pelos padrões culturais do local, os homens não se dirigiam as mulheres, o judeus não mantinham contado com os Samaritanos e um bom rabino não se aproximaria de pecadores pervertidos. Mas Jesus é santo, o que simplesmente significa que Ele é diferente sem ser pecador, por isso mesmo Ele dirigiu-se a ela gentilmente, para pedir-lhe um favor, como se ela fosse sua amiga.
Os viajantes, naquela época, sempre carregavam um odre de água, mas os companheiros de Jesus aparentemente tinham levado tudo com eles para a cidade, deixando Jesus impossibilitado de tirar água. Por isso Jesus pediu um pouco do vasilhame que ela carregava. O ato de beber do vasilhame da mulher já seria considerado uma atitude pecaminosa, suja e ritualmente impura pelos judeus, desse modo, o pedido de Jesus, mesmo que não constituísse uma violação das Escrituras, por si só já contradizia o dogma moral da religião.
Com muita maestria, Jesus lança mão da água para falar com a mulher sobre salvação – ou sobre a água viva que limpa – dada por Deus. Numa sabia tentativa de expor seu pecado e sua necessidade do perdão de Deus, Jesus pede que primeiro ela vá a sua casa chamar seu marido antes de dar-lhe a água viva, ela responde com uma meia verdade, dizendo que não tem marido. Jesus então especifica seu pecado, dizendo que ela já havia tido cinco maridos, mas agora estava vivendo em pecado, com um homem com quem não era casada.
O ato de dar nome ao pecado da mulher provocou a virada na conversa, porque então a mulher reconheceu que Jesus era um profeta que merecia seu respeito, por isso ela passa a chamá-lo de “senhor”. A conversa então estava começando a fazer sentido para ela, porque os samaritanos esperavam não pelo messias, mas pelo profeta prometido, que seria como Moisés.
Em seguida, a mulher quer saber a opinião de Jesus sobre o ponto divergente que distinguia teologicamente a sua religião, raça e adoração, da dos judeus. Para onde ela deveria se dirigir para confessar seu pecado e se reconciliar com Deus? Será que devia ir ao templo dos samaritanos, perto dali, no monte Gerizim, ou teria que viajar até o templo de Jerusalém?
A resposta de Jesus foi nada menos que o primeiro tiro da revolução que continua desde então. Sua resposta objetiva pôs fim a questão da adoração, tanto dos samaritanos quanto dos judeus, em favor da adoração que requer não apenas uma tradição e ritual exteriores, porém algo mais importante, que é a verdade e a espiritualidade interior, das quais Deus se agrada. Jesus afirmou que o Pai estava sempre procurando adoradores e que Ele daria a verdade ao povo, ao enviar o Espírito Santo para ensiná-lo a adorar e que por causa da vinda do Espírito, ninguém precisaria ir mais a nenhum lugar sagrado ou templo. Ao invés disso, poderíamos adorar a Deus em qualquer lugar e em todo lugar, se déssemos as costas ao pecado para recebermos o Espírito, que passaria a habitar em nós e, desse modo, tornaria o nosso corpo (inclusive o desta mulher, que provavelmente, naquele instante cheirava a homens e bebida barata) em um novo templo, habitado pela presença de Deus.
A palavra que Jesus usou para adoração significa literalmente “inclinar-se para beijar”. Em Jesus, Deus jogou um beijo metafórico da sua graça para esta prostituta acabada e propôs um contrato de amor que, diferente de todos os que ela havia experimentado, duraria para sempre. Como era previsível, a mulher estava tão chocada que ficou imediatamente sóbria, e, desejando um coração profundamente desejoso de perdão e compreensão, disse a Jesus que esperava ansiosamente o dia em que Deus chegaria como o Cristo-Messias e lhe explicaria todas aquelas coisas. Olhando no fundo de seus olhos lacrimejantes e provavelmente fazendo uma pausa silenciosa antes de falar, Jesus simplesmente declara “eu mesmo, que estou aqui, falando com você, o sou”.
Caso não estejamos vendo a magnitude daquele momento, repare que este é o único lugar no evangelho de João em que Jesus declara ser o prometido Messias do Antigo Testamento. Ele reservou essa grande revelação não para os grandes professores dos seminários ou para os pastores titulares das megaigrejas, mas para a mulher que ele veio cortejar espiritualmente, à beira de um poço solitário, sob o calor do sol do meio-dia. Jesus revelou o pecado da mulher ao colocar o dedo no pedaço mais sujo e marcado de sua alma, que cheirava a morte, inferno e pecado. Ele limpou tudo, curou e perdoou e ainda preencheu com a graça e o Espírito Santo, como só ele poderia fazer.
Ao nascer de novo, a mulher decidiu recomeçar sua vida, o que caracteriza a essência do arrependimento. Ela saiu em disparada na direção de Sicar, porque estava cheia de novidades para contar. Ela falou para quem quisesse ouvir que tinha sido uma mulher má e doente, controlada pela solidão e perversão, mas que tudo mudou quando encontrou Jesus. Podemos imaginar a expressão das pessoas, inclusive de vários homens, que provavelmente já haviam visto ela despida, mas que nunca a tinham visto coberta de retidão. Como primeira evangelista do Novo Testamento, ela estava fazendo um trabalho missionário dentro de sua cultura, levando as pessoas a Jesus para que recebessem salvação e vida.
Muitos idólatras, heréticos e marginalizados, vieram a crer em Jesus através do testemunho dessa mulher, pessoas que conseguiram enxergá-lo perfeitamente como Salvador de todas as nações da terra, por causa de uma vida transformada. Então eles convidaram Jesus a estar com eles como amigos na pecaminosa Sicar. E Jesus ficou mais dois dias, ensinando e vendo muito mais gente ainda crer.

Extraido do livro Reformissão de :Mark Driscoll

Nenhum comentário:

Postar um comentário