segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A IGREJA E A POLÍTICA DOS EVANGÉLICOS NO SÉCULO 21



Um dos mais respeitáveis teólogos da atualidade, fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana, Samuel Escobar, considera que "o mundo de amanhã não precisa de latino-americanos que aspirem por viver na comodidade e no luxo (...), mas de latino-americanos que convençam seus parceiros norte-americanos e europeus de que se pode viver com simplicidade e alegria, com os meios estritamente necessários para realizar a obra, e um senso de satisfação que vem da fidelidade ao chamado de Deus".
No alvorecer dos século 21, os evangélicos latino-americanos reconhecem que é impossível ao homem do futuro viver a experiência da graça salvadora de Deus, sem recuperar a visão bíblica do ser humano como ser social, cuja transformação é vivida no contexto de sua própria comunidade. É na igreja que se vive as dimensões do pessoal e do comunitário da salvação.
Ao contrário do século 20, que se construiu voltado para o imediato da vida, o desgaste das grandes correntes político-ideológicas coloca o homem do século 21 diante de uma perspectiva que muitos acreditavam morta: a vivência da espiritualidade como opção válida para a construção de uma humanidade solidária.
Estamos presenciando em toda a América Latina a redescoberta da realidade da vida espiritual e da dimensão religiosa. Nesse sentido, tanto a tecnologia como a formação intelectual deixam de ser dimensões antagônicas à fé, para ocupar o lugar que sempre lhes pertenceu, de ferramentas imprescindíveis ao conhecimento humano.
É verdade, que a redescoberta da dimensão espiritual do homem nos leva a dois problemas que devem ser condenados claramente. De um lado, existem aqueles que se aproveitam da crescente fome espiritual da humanidade para acumular riquezas e poder. E por outro, é um erro olhar a Europa e os Estados Unidos como sociedades cristãs, que através de suas políticas expandem o cristianismo no mundo. O que não é verdade. A Europa e os Estados Unidos traduzem a triste realidade de culturas pós-cristãs e suas políticas nacionais pouquíssimas vezes traduzem a ética e a fraternidade propostas pelo Cristo.
Esses dois alertas são fundamentais, pois mostram que a redescoberta da espiritualidade pelo homem pós-moderno não está isenta de problemas. De todas as maneiras, é bom lembrar que dos 6 bilhões de habitantes do mundo, um terço nomeia-se cristão e que a cada dia 70 mil pessoas adotam o cristianismo como fé e religião.
Por isso, a partir de uma releitura de Sulla teologia del mondo, de Johann Baptist Metz, 1968, sugerimos a formulação de uma práxis política evangélica que deve, estrategicamente, partir de duas tarefas: uma negativa e outra positiva.
1. A pars destruens consiste em realizar a crítica da tendência da teologia à privatização. O iluminismo rompeu a unidade entre existência religiosa e existência social, e o marxismo definiu a religião como superestrutura ideológica de determinada práxis social e de determinadas relações de poder. Assim, o iluminismo e o marxismo definiram a impossibilidade do sagrado no mundo e a teologia acabou por refugiar-se na esfera do privado: "Ela [...] privatizou esta mensagem em seu núcleo essencial e reduziu a práxis da fé à decisão amundana do indivíduo. Essa teologia procurou resolver o problema surgido com o Iluminismo, eliminando-o. Para a consciência religiosa, determinada por essa teologia, a realidade social e política tem apenas uma existência efêmera. As categorias que essa teologia utiliza para explicar a mensagem [cristã] são predominantemente categorias do íntimo, do privado, do apolítico" [J. B. Metz, Sulla teologia del mondo, 1968, p. 106].
2. A pars construens consiste em desenvolver as implicações sociais da mensagem cristã. Não se trata de eliminar o problema levantado pelo iluminismo e pelo marxismo - como o fazem a metafísica e a teologia existencial --, mas em responder teologicamente aos desafios, assumindo a tarefa de desenvolver uma nova relação entre teoria e prática. A teologia pode e deve fazê-lo, pois as promessas escatológicas da tradição bíblica, de liberdade, de paz, de justiça e de reconciliação, não constituem um horizonte vazio na expectativa cristã, mas têm uma dimensão política, que é preciso fazer valer na sua função crítica do processo histórico-social.
"A salvação a que se refere a esperança da fé cristã não é uma salvação privada. A proclamação desta salvação empurrou Jesus para um conflito mortal com os poderes políticos de seu tempo. Sua cruz não está no privatissimum da esfera indivíduo/pessoa, e muito menos no sanctissimum da esfera puramente religiosa. Ela está além do umbral da reservada esfera privada ou da protegida esfera puramente religiosa. Ela está 'fora', como formula a teologia da Carta aos Hebreus. O véu do templo foi definitivamente rasgado. O escândalo e a promessa desta salvação são públicos" [Id., ibid., p. 110].
Assim, na elaboração de uma teologia política evangélica, à igreja cabe a tarefa de proclamar o evangelho da salvação, exercendo função crítica diante da sociedade. A igreja pode e deve assumir essa tarefa, apesar dos muitos erros que cometeu. Esta tarefa deve ser exercida na defesa do indivíduo, de sua pessoalidade -- que não podem ser vistos simplesmente como material e meio para a construção do futuro tecnológico -- e na mobilização do poder crítico do amor que está no centro da tradição cristã.
A função crítica da igreja frente à sociedade produzirá sempre repercussões na própria igreja: promoverá uma nova consciência no interior da igreja e criará uma transformação das relações da igreja com a sociedade.
 autor: Pr. Jorge Pinheiro dos Santos
fonte: http://www.evangelica.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=165&sg=64&form_search=&pg=1&id=1889

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