“Ordena o que quiseres, e dá-me o
que ordenares.”
2 Crônicas 30 nos diz
como o rei Ezequias restaurou a Páscoa em Israel. Essa celebração havia
sido negligenciada, e Ezequias contristou-se por essa desobediência. Por
isso, enviou mensageiros que percorressem o país e chamassem o povo ao
arrependimento e à obediência.
A mensagem do rei
estava repleta de afirmações condicionais. Por exemplo: “Se vós vos
converterdes ao SENHOR… vosso Deus… não desviará de vós o rosto” (v. 9). Estas
afirmações condicionais mostram que Deus reage às nossas escolhas. Ou
seja, se fizermos determinada escolha, Deus faz algo; se fizermos
uma escolha diferente, Ele faz algo diferente. Por isso, Ezequias convocou o
povo a voltar-se para o Senhor, a fim de que Ele se voltasse
para o povo.
Esta reação de Deus às
escolhas que fazemos levam algumas pessoas a precipitarem-se a uma conclusão
“lógica” que não possui qualquer fundamento. Eles dizem: “Se Deus reage às
nossas escolhas, então, o que escolhemos e o que Deus faz em resposta à nossa
escolha dependem, em última instância, de nós mesmos”. Isto é o que eu chamo de
“interpretação filosófica”, em vez de interpretação exegética. Em outras
palavras, esta maneira de entender as afirmações condicionais da Bíblia resulta
do raciocínio lógico do ser humano, e não da atenção cuidadosa aos caminhos
singulares de Deus revelados no texto bíblico.
Quero ilustrar isso
com base em 2 Crônicas 30. Estas são as exortações que Ezequias enviou ao
povo. Estão carregadas de condições:
• Versículo 6: “Filhos
de Israel, voltai-vos ao SENHOR, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel,para
que ele se volte para o restante que escapou do poder dos reis da
Assíria”. Em outras palavras, se vocês se voltarem ao Senhor, Ele se voltará
para vocês.
• Versículo 7: “Não
sejais como vossos pais e como vossos irmãos, que prevaricaram contra o SENHOR,
Deus de seus pais, pelo que os entregou à desolação, como
estais vendo”. A ação de Deus em entregar os pais “à desolação” resultou de
haverem eles sido infiéis ao Senhor.
• Versículo 8: “Não
endureçais, agora, a vossa cerviz, como vossos pais; confiai-vos ao SENHOR, e
vinde ao seu santuário que ele santificou para sempre, e servi ao SENHOR, vosso
Deus, para que o ardor da sua ira se desvie de vós”. O ardor
da ira de Deus se desviará de vocês, se servirem ao Senhor Deus.
• Versículo 9: “Porque, se vós
vos converterdes ao SENHOR, vossos irmãos e vossos filhosacharão misericórdia
perante os que os levaram cativos e tornarão a esta terra; porque o SENHOR, vosso
Deus, é misericordioso e compassivo e não desviará de vós o rosto, se vos
converterdes a ele”. Converter-se ao Senhor é uma condição que as pessoas têm
de satisfazer, para que recebam a compaixão do Senhor em não virar as costas
para elas.
Qual foi a resposta
obtida pelos servos de Ezequias que levavam essas mensagens de esperança
condicional? O versículo 10 nos mostra que algumas pessoas “riram-se e zombaram
deles”. Mas outras “de Aser, de Manassés e de Zebulom se humilharam e foram a
Jerusalém” (v. 11). O povo de Judá fez essa mesma escolha humilde (v. 12). O
que fez a diferença na maneira como as pessoas reagiram? O versículo 12 nos dá
a resposta incomum: “Também em Judá se fez sentir a mão de Deus, dando-lhes
um só coração, para cumprirem o mandado do rei e dos príncipes, segundo a
palavra do SENHOR”.
Não leia isso
rapidamente. Pense sobre as implicações impressionantes. São importantíssimas.
O que o versículo 12 ensina, à luz do contexto anterior, é que Deus havia
ordenado: “Voltai-vos para mim, eu me voltarei para vós”. Algumas pessoas se
voltaram. Por que motivo o fizeram? O versículo 12 apresenta a mais profunda
razão: Deus lhes deu um coração disposto a fazer o que Ele ordenara.
“Também em Judá se fez sentir a mão de Deus, dando-lhes um só coração,
para cumprirem o mandado do rei e dos príncipes”.
Há alguma contradição
em afirmar: “Se fizerem o que o rei ordenou, Deus removerá a sua ira de vocês”
e, em seguida: “Deus lhes deu um coração disposto a fazer o que o rei
ordenara”? É uma contradição afirmar uma condição que o povo tinha de
satisfazer e, em seguida, dizer que Deus os capacitou a satisfazer a condição?
Não, não é uma contradição. Somente um preconceito filosófico contrário ao
ensino deste texto bíblico chamaria isso de contradição.
Isso esclarece dezenas
de passagens bíblicas. De fato, esclarece toda a estrutura do pensamento
bíblico. Quando lemos sentenças como: “Se vos voltardes ao SENHOR, Ele se
voltará para vós”, não nos precipitemos à conclusão de que aquilo que
escolhemos e aquilo que Deus faz em resposta à nossa escolha depende
exclusivamente de nós. O versículo 12 ensina com bastante clareza: O que Deus
ordena, Ele também pode dar. Isto é o correspondente bíblico mais próximo à
famosa oração de Agostinho: “Ordena o que quiseres, e dá-me o que ordenares” (Confissões,
X, xxix, 40).
A lição para nós é uma
advertência e uma exortação. Acautele-se de interpretar a Bíblia com
inferências lógicas, em vez de prestar atenção ao texto. Em vez disso,
alegre-se, porque a graça de Deus está por trás de sua reação à graça dEle. Se
a graça não nos despertar à graça, dormiremos durante o acontecimento. “Porque
dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória
eternamente” (Romanos 11.36).
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